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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

CANÇÃO - Por Luis de Camões

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CANÇÃO 
Vão as serenas águas
Do mondego descendo 
E mansamente até o mar não param;
Por onde as minhas mágoas, 
Para nunca acaba se começaram. 
Ali se me mostrarão
Neste lugar ameno, 
Em que ainda agora moro, 
Testa de neve e de ouro, 
Rizo brando e suave; olhar sereno; 
Um gesto delicado, 
Que sempre n'alma me estará pintado. 
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Nesta florida terra, 
Leda, fresca e serena, 
Ledo e contente para mim vivia; 
Em paz com minha guerra, 
Glorioso com a pena 
Que de tão belos olhos precedia.
Dum dia em outro dia, 
O esperar me enganava; 
Tempo longo passei; 
Com a vida folguei, 
Só porque em bem tamanho se empregava. 
Mas que me presta já, 
Que tão formosos olhos não os há? 
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Oh! quem me ali dissera
Que de amor tão profundo
O fim pudesse ver eu alguma hora!
E quem cuidar pudera
Que houvesse ali no mundo
Apartar-me eu de vós, minha senhora! 
Para que desde agora, 
Já perdida a esperança 
Visse o vão pensamento, 
Sem me poder ficar mais que a lembrança; 
Que sempre estará firme 
Até ao derradeiro despedir-me
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Mas a maior alegria 
Que daqui levar posso, 
E com que defender-me triste espero. 
É que nunca sentia 
No tempo que fui vosso, 
Quererdes-me vós quanto vos eu quero
Porque o tormento fero
Do vosso apartamento, 
Não vos dará tal pena
Como a que me condena; 
Que mais sentirei vosso sentimento, 
Que o que a minh'alma sente. 
Morra eu, Senhora, e vós ficai contente. 
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Tua Canção, estarás 
Agora acompanhando
Por estes campos estas claras águas; 
E por mim ficarás 
Com choro suspirando; 
Porque, no mundo dizendo tantas mágoas, 
Como uma larga história
Minhas lágrimas fiquem por memória.
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UMA BREVE BIOGRAFIA 
               Luis de camões, o mais ilustre dos poetas portugueses, nasceu em Coimbra ou Lisboa, provavelmente no meado do terceiro decênio do século XVI. A sua vida foi cheia de aventuras e adversidades. Tendo frequentado por muito tempo a corte de D.João III, da qual teve de se ausentar segundo alguns autores por causa dos seus amores com D. Catarina de Ataíde, dama da Rainha, que o próprio poeta imortalizou sob o nome de Natércia. Por ordem do Rei, teve de partir para Ceuta, onde perdeu um olho numa luta com os mouros. Depois de ter estado preso em Lisboa durante um ano, no qual compôs o primeiro canto dos "Lusíadas", partiu em 1553 para a Índia, tomando parte em várias expedições militares. Em Macau completou seis cantos do poema, e chamado a Goa, naufragou na costa do Cambodja, Com muito custo salvando-se a nado. Durante algum tempo viveu entre os Budistas de Cambodja, Chegou a Málaga e daí a Goa. Em 1569 regressa de todo a Lisboa, onde morreu a 10 de Junho de 1580.
Nicéas Romeo Zanchett 
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