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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

BABEL DE SIÃO - Por Luis de Camões

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Sôbolos rios que vão 
Por Babilônia, me achei, 
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião, 
E quanto nela passei. 
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Ali o rio corrente
De meus olhos foi manado, 
E tudo bem comparado; 
Babilônia, ao mal presente, 
Sião, ao tempo passado.
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Ali lembranças contentes
Na alma se representam; 
E minhas coisas ausentes
Se fizeram tão presentes, 
Como se nunca passaram. 
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Ali, depois de acordado, 
C'o rosto banhado em água
Deste sonho imaginado, 
Vi que todo o bem passado 
Não é gosto, mas é mágoa.
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E vi que todos os danos
Se causavam das mudanças, 
E as mudanças dos anos, 
Onde vi quantos enganos
Faz o tempo às esperanças.
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Ali vi o maior bem
Quão pouco espaço que dura; 
O mal quão depressa vem; 
E quão triste estado tem 
Quem se fia da ventura.
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Vi aquilo que mais val 
Que então se estende melhor
Quando mais perdido for;
Vi ao bem suceder mal, 
E ao mal muito pior. 
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E vi com muito trabalho 
Comprar arrependimento; 
Vi nenhum contentamento; 
E vejo-me a mim, que espalho 
Tristes palavras ao vento.
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Bem são rios estas águas
Com que banho este papel; 
Bem parece ser cruel
Variedade de mágoas
E confusão de Babel.
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Como homem que, por exemplo
Dos trances em que se achou, 
Depois que a guerra deixou, 
Pelas paredes do templo
Suas armas pendurou;
Assim depois que assentei 
Que tudo a tempo gastava, 
Da tristeza que tomei, 
Nos salgueiros pendurei
Os órgãos com que cantava. 
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Aquele instrumento ledo
Deixei da vida passada, 
Dizendo: "Música amada,
Deixo-vos neste arvoredo
A memória consagrada. 
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Flauta minha, que tangendo
Os montes fazíeis vir
Para onde estáveis, correndo, 
E as águas que iam descendo, 
Tornavam logo a subir, 
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Jamais vos não ouvirão
Os tigres que se amansavam; 
E as ovelhas que pastavam
Das ervas se fartarão, 
Que por vos ouvir deixavam. 
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Já não fareis docemente 
Em rosas tornar abrolhos;
Na ribeira florescente; 
Nem poreis freio à corrente, 
E mais se for dos meus olhos.
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Não movereis a espessura, 
Nem podereis já trazer
Atrás vós a fonte pura; 
Pois não pudestes mover
Desconcertos da ventura.
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Ficareis oferecida
À fama que sempre vela, 
Flauta de mim tão querida; 
Porque mudando-se a vida, 
Se mudam os gostos dela.
Acha a tenra mocidade 
Prazeres acomodados; 
E logo a maior idade
Já sente por pouquidade 
Aqueles gostos passados. 
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Um gosto, que hoje se alcança, 
Amanhã já não o vejo;
assim nos traz a mudança
D'esperança em esperança, 
E de desejo em desejo.
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Mas em vida tão escassa
Que esperança será forte? 
Fraqueza da humana sorte, 
Que quando da vida passa
Está recitando a morte! 
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Mas deixar nesta espessura  
O canto da mocidade - 
Não cuide a gente futura
Que será obra da idade
O que é força da ventura!
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Que idade, tempo, e espanto
De ver quão ligeiro passe, 
Nunca em mim puderam tanto 
Que, posto que deixo o canto. 
A causa dele deixasse. 
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Mas em tristezas e nojos, 
Em gosto e contentamento, 
Por sol, por neve, por vento, 
Tendre presente à los ojos
Por quien muero tan contento. 
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Órgãos e flauta deixava, 
Despojo meu tão querido, 
No salgueiro que ali estava, 
Que para troféu ficava
De quem me tinha vencido. 
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Mas lembranças de afeição
Que ali cativo me tinha, 
Me perguntaram então, 
Que era da música minha
Que eu cantava em Sião?
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Que foi daquele cantar, 
Das gentes tão celebrado? 
Porque o deixava usar, 
Pois sempre ajuda passar
Qualquer trabalho passado?
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Canta caminhante ledo
No caminho trabalhoso
Por entre espesso arvoredo; 
E de noite o tenebroso
Cantando refreia o medo.
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canta o preso docemente, 
Os duros grilhões tocando;
canta o segador contente; 
E o trabalhador, cantando, 
O trabalho menos sente. 
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Eu que estas coisas senti
Na alma de mágoas tão cheia, 
Como dirá (respondi)
Quem alheio está de sia
Doce canto em terra alheia? 
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Como poderá cantar
Quem em choro banha o peito? 
Porque se, quem trabalhar
canta por menos cansar, 
Eu só descansos enjeito. 
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Que não parece razão,  
Nem seria coisa idônea, 
Por abrandar a paixão
Que cantasse em Babilônia
As cantigas de Sião. 
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Que quando a muita graveza
Da saudade quebrante
Esta vital fortaleza, 
Antes morra de tristeza
Que por abrandá-la cante.
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Que se o fino pensamento 
Só na tristeza consiste, 
Não tenho medo ao tormento;
Que morrer de puro triste, 
?Que maior contentamento? 
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Nem na frauta cantarei 
O que passo e passei já, 
Nem menos o escreverei; 
Porque a pena cansará, 
E eu não descansarei.
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Que se vida tão pequena
Se acrescenta em terra estranha, 
E se Amor assim o ordena, 
Razão é que canse a pena
De escrever pena tamanha. 
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Porém, se para assentar
O que sente o coração, 
A pena já me cansar, 
Não canse para voar
A memória em Sião! 
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Terra bem-aventurada, 
Se por algum movimento
D'alma me fores tirada, 
Minha pena seja dada
A perpétuo esquecimento! 
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A pena deste desterro, 
Que eu mais desejo esculpida
Em pedra ou em duro ferro, 
Essa nunca seja ouvida, 
Em castigo de meu erro!
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E se eu cantar quiser, 
Em Babilônia sujeito, 
Hierusalem, sem te ver, 
A voz, quando a mover, 
Se me congele no peito! 
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A minha língua se apague
Às fauces, pois te perdi,
Se, enquanto viver assim, 
Houver tempo em que te negue
Ou que me esqueça de ti.
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Mas oh tu, terra de glória, 
Se eu nunca vi tua essência,
Como me lembras na ausência? 
Não me lembras na memória, 
Senão na reminiscência; 
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Que a alma é taboa rasa, 
Que com a escrita doutrina
Celeste tanto imagina
Que voa da própria casa, 
E sobre à pátria divina.
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Não é logo a saudade
Das terras onde nasceu
A carne, mas é do céu, 
Daquela santa cidade.
Donde esta alma descendeu. 
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E aquela humana figura, 
Que cá me pode alterar, 
Não é quem se ha de buscar; 
É raio da formosura
Que só se deve d'amar.
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Que os olhos, e a luz que ateia
O fogo que cá sujeita, 
Não do sol, nem da candeia, 
É sombra daquela ideia, 
Que em Deus está mais perfeita. 
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E os que cá me cativaram, 
São poderosos afetos
Que os corações tem sujeitos; 
Sofistas, que me ensinaram
Maus caminhos por direitos. 
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Destes o manto tirano
Me obriga com desatino
A cantar, ao som do dano,
Cantares d'amor profano
Por versos d'mor divino. 
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Mas eu lustrado c'o o santo
Raio, na terra de dor, 
De confusões e de espanto, 
Como hei de cantar o canto
Que se deve ao Senhor? 
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Tanto pode o benefício
Da graça que dá saudade, 
Que ordena que a vida mude, 
E o que eu tomei por vício, 
Me faz grau para virtude;
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E faz que este natural
Amor, que tanto se preza,
Suba da sombra ao real,
Da particular beleza
Para a beleza geral.
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Fique logo pendurada
Oh frauta com que tangi, 
A Jerusalém sagrada, 
E tome a lira dourada
Para só cantar de ti;
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Não cativo e ferrolhado
Na Babilônia infernal,  
Mas dos vícios desatado, 
E cá desta a ti levado, 
Pátria minha natural!
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E se eu mais der a cerviz 
A mundanos acidentes, 
Duros, tiranos e urgentes, 
Risque-se quanto já fiz
Do gram livro dos viventes!
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E, tomando já na mão
A lira santa e capaz
Doutra mais alta invenção, 
Cale-se esta confusão!
Cante-se a visão de paz!
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Ouça-me o pastor e o rei!
Retumbe este acento santo! 
Mova-se no mundo espanto, 
Que do que já mal cantei
A palinódia já canto! 
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A vós só me quero ir, 
Senhor e gram Capitão
Da alta torre de Sião, 
A qual não posso subir,
Se me vós não dais a mão. 
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No gram dia singular, 
Que na lira em douto som 
Jerusalém celebrar, 
Lembrai-vos de castigar
Os ruins filhos de Edom!
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Aqueles que tintos vão
No nobre sangue inocente, 
Soberbos com o poder vão,
Arrasá-los igualmente!
Conheçam que humanos são!

E aquele poder tão duro
Dos afetos com que venho, 
Que encendem alma e engenho, 
Que já me entraram o muro 
Do livre arbítrio que tenho; 
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Estes que tão furiosos 
Gritando vem a escalar-me, 
Maus espíritos danosos, 
Que querem como forçosos
Do alicerce derribar-me;
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Derribai-os, fiquem sós, 
De forças fracos, imbeles!
Porque não podemos nós, 
Nem com eles ir a vós, 
Nem sem vós tirar-nos deles. 
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Não basta minha fraqueza
Para me dar defensão, 
Se vós, santo Capitão, 
Nesta minha fortaleza
Não puserdes guarnição.
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E tu, oh carne que encantas, 
Filha de Babel tão feia, 
Toda a miséria cheia, 
Que mil vezes te levantas
Contra quem te senhoreia,
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Beato só pode ser
Quem com a ajuda celeste
Contra ti prevalecer, 
E te vier a fazer
O mal que lhe tu fizeste; 
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Quem com disciplina crua
Se fere mais que uma vez; 
Cuja alma, de vícios nua, 
 Faz nódoas na carne sua, 
Que já a carne na alma fez. 
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É beato quem tomar
Seus pensamentos recentes
E em nascendo os afogar, 
por não virem a parar 
Em vícios graves e urgentes;
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Quem com eles logo der
Na pedra do furor santo,
 E batendo o desfizer
Na Pedra, que veio a ser
Emfim "cabeça de canto:"
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Quem logo, quando imagina
Nos vícios da carne má, 
Os pensamentos declina
Àquela carne divina
Que na Cruz esteve já;
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Que do vil contentamento
Cá  deste mundo visível,
Quanto ao homem for possível,
Passar logo o entendimento
Para o mundo inteligível,
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Ali achará alegria,
Em tudo perfeita, e cheia
De tão suave harmonia
Que nem por pouca recreia, 
Nem por sobeja enfastia. 
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Ali verá tão profundo
Mistério na suma Alteza, 
Que, vencida a natureza, 
Os mores faustos do mundo
Julgue por maior baixeza.
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Oh tu divino aposento, 
Minha pátria singular, 
Se só com te imaginar,
 Tanto sobe o entendimento, 
Que fará, se em ti se achar?
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Ditoso quem se partir
Para ti, terra excelente, 
Tão justo e tão penitente
Que depois de a ti subir, 
Lá descanse eternamente! 
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Luiz de Camões

EM LOUVOR A CAMÕES Por Bocage

Desenho de Romeo Zanchett 
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Sobre os contrários o terror e a morte
Dardeje embora Achilles denodado, 
Ou no rápido carro ensanguentado
Leve arrastos sem ida o Teucro forte;
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Embora o bravo Macedônio corte 
Com a fulminante espada o nó fadado, 
Que eu de mais nobre estímulo tocado, 
Nem lhe amo a glória, nem lhe invejo a sorte;
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Invejo-te Camões, o nome honroso; 
Da mente criadora o sacro lume, 
Que exprime as fúrias de Lyeu raivoso; 
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Os ais de Inês, de Vênus o queixume, 
As pragas do gigante proceloso, 
O céu de amor, o inferno do ciúme. 
Bocage
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Nicéas Romeo Zanchett 

ALMA MINHA GENTIL - Por Luis de Camões

Obra de Chagall 
ALMA MINHA GENTIL 
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Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente, 
Repousa lá no céu eternamente, 
E viva eu cá na terra sempre triste!
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Se lá no assento etéreo onde subiste
Memória desta vida se consente, 
Não te esqueças de aquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste! 
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E se vires que pode merecer-te
Alguma coisa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te, 
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Roga a Deus, que teus anos encurtou, 
Que tão cedo de cá me leve a ver-te
Quão cedo de meus olhos te levou! 
LEIA TAMBÉM >> VIDA E OBRA DE BALZAC
Nicéas Romeo Zanchett 

domingo, 14 de setembro de 2014

CAMÕES E OS LUSÍADAS - Por Ferreira de Araújo


Uma homenagem de Ferreira Araújo a Camões

Voga a nau; vai nela o vate
Que à deusa das eras idas
Dera glorias mais súbitas
Que Olimpos que o tempo abate.
Vênus o canto, ofega, anceia...
Ouve o canto, ofega, anceia...
E encantada - ela, a sereia - 
Segue o bardo triunfante. 
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Ardendo em zelos, ignara, 
A onda envolve o convés, 
canto e cantor... Porém pára...
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Chorava a deusa... e tal fez, 
Que o mar, que Vênus gerara, 
Deu vida ao belo outra vez. 

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BREVE BIOGRAFIA de Ferreira  Araújo
              José Souza Ferreira de Araújo 
Nicéas Romeo Zanchett 

A VIDA DE CAMÕES - Por Oliveira Martins


DEPOIMENTO
de Oliveira Martins
                     A vida do herói e a vida do poeta são um martírio permanente; um pelos impulsos da ambição ativa, outro pela veemência das intuições devorantes. E quando a vis poética toma, como em Camões, o caráter épico, a sua alma vibrante estremece a um tempo com as crises do sentimento as crises igualmente comoventes do patriotismo, da filantropia e da religião. Deus, os homens, a pátria, a sociedade e a história, o passado e o futuro, a terra e os céus infinitos, agitam-se-lhe na imaginação candente, revolvendo-se em tornando-se problema nodal da afetividade humana, da afinidade eletiva, do amor pessoal, do eterno feminino, da mulher, emfim, que, sendo o próprio coração de tudo, se torna o símbolo por excelência poético da existência. 
Oliveira Martins. 


BREVE BIOGRAFIA de Oliveira Martins
                Joaquim Pedro de Oliveira Martins nasceu em Lisboa a 30 de Abril de 1845 e morreu em Lisboa no dia 24 de Agosto de 1894.  Foi um político e cientista social português. Uma das figuras mais importantes da história portuguesa contemporânea. Suas obras marcaram e influenciaram sucessivas gerações de escritores e estudiosos no século XX.  
Nicéas Romeo Zanchett 


O DIA DE CAMÕES - Por Tobias Barreto


                 Com os heróis da humanidade, com aqueles a quem coube a tarefa hercúlea de representar dignamente qualquer dos lados brilhantes da natureza humana, dá-se o mesmo , exatamente o mesmo que com os festejados heróis da velha Igreja; o dia em que nascem não é mais fausto e glorioso  do que o dia em que morrem. O nascer e o morrer mal se distinguem, se é que alguma distinção existe ente o momento expressivo, no qual o elemento divino de uma nacionalidade, o verdadeiro espírito de um povo se faz homem e não menos soberbo momento, em que esse homem se faz deus!... Nós hoje testemunhamos, sob a garantia de três séculos de admiração e preito incessante, a esplêndida confirmação de uma destas apoteoses.
                 A gratidão, já houve quem dissesse, a gratidão é a virtude da posteridade. O assento é incontestável, como expressão de um fato conhecido, ainda que sempre estranho e pasmo, qual é por certo o pungente espetáculo, oferecido pela história de todos os povos que tem uma história, de ser quase sempre reservada aos pósteros a missão nobilitante de lavar a mácula dos seus antepassados, honrando virtudes que eles desprezavam, glorificando grandezas que eles não compreenderam. Porém, não basta estabelecer o fato; é preciso subir à concepção da lei. Não basta dizer que a gratidão é a virtude da posteridade; é mister acrescentar que só a posteridade, somente ela, pode pagar o tributo devido ao mérito dos grandes homens. É o efeito de uma lei histórica, pela qual homens representativos, por isso mesmo que eles são a soma do trabalho evolucional de muitas gerações, não poem ser compreendidas, e tão pouco apreciados por aqueles de que fazem parte. 
                
>>>>>>>"O gênio, diz Schopenhauer, é demasiado raro para encontrar com facilidade seus iguais, e muito diverso dos outros, para ser seu companheiro".  <<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<
Dai o isolamento, com o isolamento a tristeza, com a tristeza a inação, com a inação a miséria. A luz do gênio é sempre incômoda aos olhos dos que de perto e face a contemplam. 
                 E nesse sentido, são dignas de de repetirem-se as palavras de Chanfort: 
                 -"Il  en este de la valeur des hommes comme de celle des diamans qui, à une certaine mesure de grosseur, de pureté, de perfection, ont un prix fixe et marqué, mais qui, par de là cette mesure, restent sans prix, et ne trouvent pasd'acheuter." 
                O poeta Luis de camões possuia esse valor. 
A ocasião é chegada de absolver Portugal da culpa que se lhe ague, pela morte obscura e mesquinha do maior vulto das suas letras, do único busto não estragado nem inutilizado pela mão do tempo na sua vasta galeria de heróis.
                 A geração que viu Camões, não estava no caso de render uma homenagem, que três séculos posteriores não puderam esgotar, não deram por acabada. 
                 "In quello stesso tempo, diz Luigi Settembrini..., che il Tasso era chiuso fra i mattei nell'ospedale de Ferrara, nell'ospedale de Lisbornna moriva um mendico vecchio soldato portoghese, il poeta Luigi de Camoens; questi due sventurati erano nel seculo gli nomini piu grandi delle loro nazzione."
                  Eu não reclamarei para o português a precedência do infortúnio, nem também contestar que fossem justamente os dois infelizes os maiores homens de suas nações. 
                 Mas, mesmo assim, é lícito observar que o  cantor de Amida, além de pisar o mesmo solo que pisaram Savonarola e Giordano Bruno, além de já encontrar  circulando por toda a Itália o capital de ideias novas, acumulado em Florença por "Laurenzo, il magnífico", e mais tarde na corte dos papas por Júlio II e Leão X, teve a sorte de conviver com espíritos de alta esfera; e na própria corte de Ferrara pode ele complementar, na pessoa de Olímpia Morata, todos os esplendores da ciência do tempo. 
                  Na contenda provocada pela Gerusalemme com Leonardo Salviati e Bastiano de Rossi,  já via-se figurar um Galileu Galilei... 
                  Mas o cantor de Ignez de Castro dizia: "mas o velho soldado português que é que teve em torno de si? Quase ninguém." 
                  Posto que legítimo filho da Renascença, que fora, na bela frase de George Sand, a ressurreição da carne, Camões não encontrará, não pudera encontrar no ambiente pátrio as facilidades, os incentivos, os ímpetos e arroubos da pagânica vida italiana de então. 
A atmosfera política e social portuguesa podia ser bem favorável ao arfar dum peito de soldado; mas não era das mais aptas para fazer ressoar o coração dum poeta.  Compreende-se, portanto, de que tamanho deve ter sido esta alma de guerreiro, que excede a  sua época e o seu país, que excede-se a si mesmo, para legar à pátria o mais rico monumento de suas glórias, a famosa epopeia dos "Lusíadas", esse livro que vale cem batalhas, ainda mesmo coroadas de vitorias e conquistas. 
                   Camões foi um solitário, e da mais triste das solidões: as solidões do pensamento. O seu contemporâneo Ronsard, morto cinco anos depois dele, foi reformador e revolucionário das letras; escreveu uma vez o seguinte : 
                   "Ajourd'hui pour ce que notre France n'obeit qu'à un seul rei, nous sommes contraits, si nous voulons parvenir honneur, de parlerson langage." 
                   Entretanto, a Camões não coube igual destino. 
                   As cortes de João III, de catarina e Sebastião não eram tais, que tivessem uma linguagem sua, e os grandes espíritos se vissem constrangidos ao uso dela.  pelo contrário, o poeta houve mister de criar uma própria. De criar! ...
Dir-se-ia uma exageração, mas não o é.
                   Dar a uma língua,como f~e-lo o épico português, uma afeição acentuada e característica, escultural, por assim dizer, nas formas eternas da poesia, vazar em moldes homéricos uma das faces do seu desenvolvimento, é ainda um modo de criação, é criá-la pela segunda vez. Qualquer que seja a sua procedência, e o seu modo de herança e adaptação, a língua é um daqueles bens, de que fala Goethe, que, mesmo herdados, devem ser de novo adquiridos, para se possuir. Ninguém melhor que camões adquiriu de novo  esse bem, herdado de seus pais, afim de possuí-lo, e tornar-se com ele e por ele o imorredouro pregão do ninho seu paterno.  Na festa secular do natalício de Schiller em Novembro de 1859 dizia Jacob Grimm: 
                   "Quem estuda e perscruta a história deve reconhecer a poesia como uma das alavancas poderosas para a elevação do gênero humano, como uma exigência essencial do seu impulso e do seu progresso. 
                   Porquanto, se a língua própria de um povo é o tronco, em que se manifestam e se expandem todos os seus dotes interiores, é só na poesia que desabrocha a florescência do seu crescer e do seu prosperar. A poesia é aquilo, não só por cujo meio a língua se nos torna cara, mas também em que ela se afeiçoa e se entumece, de uma espécie de aroma espiritual, que dela ressumbra. A língua de um povo que não tem poetas estaca e começa poco a pouco a fenecer como o povo mesmo, a quem não coube em partilha esse entusiasmo; fraco e retraído ele aparece diante dos outros que gozam dessa delícia. O poeta é, pois, aquele em quem se exprime e se encarna a natureza completa do povo, a que ele pertence, é como o gênio no qual a posteridade o encara. 
                   Estas palavras assentam em cheio no vulto grandioso, cuja memória hoje se festeja. Todos nós sabemos o que é e o que vale Portugal pelos Lusíadas; é, porém, difícil de imaginar o que seria Portugal sem eles...
                  Conta-se de Kossuth, o célebre húngaro, que no ano de 1849, em chegando a Londres, causou pasmo geral pela magistral facilidade com que falava a língua do país; aumentando ainda mais o entusiasmo com a singela declaração de que havia bebido o seu inglês somente em Shakespeare!... Eu não sei se os há; mas não seria para admirar  que estrangeiros também houvesse, que haurissem o seu português... somente em Luis de camões. Este único ponto de apreciação do poeta, quando tudo mais ficasse de parte, seria suficiente para explicar a justificar o preito que lhe rendemos. Nós outros, que iniciamos a nossa vida intelectual nos frutos da vida intelectual portuguesa, não fazemos mais do que cumprir um dever de homens cultos, pagando ao vate português, ao primeiro cantor da civilização moderna, o tributo a que tem direito. E depois de ajoelhar-mo-nos diante da sua imagem, oxalá possamos reforçar com tão nobre exemplo o sentimento da grandeza humana, guardando no peito, como impressão do fenômeno, a convicção sincera de que, como disse Schiller: 
"De todos os bens da vida
A glória é o mais alto bem,
O corpo ha muito que é poeira
E o nome ecoa ainda além!..." 
                 
BREVE BIOGRAFIA de Tobias Barreto
                

                  Tobias Barreto de Menezes, poeta e prosador brasileiro, nasceu na vila de campo, de Sergipe, a 7 7 de junho de 1839, e faleceu na capital de Pernambuco a 26 de junho de 1889. Estudou as primeiras letras na terra natal, completando os seus estudos em Estância, Lagarto, Bahia e Pernambuco. O magistério foi o seu modo de vida mais constante. Formado em advocacia em 1871, passou a viver desse ofício. Foi filósofo, poeta, escritor e jurista fervoroso. Membro da Academia Brasileira de Letras onde ocupava a cadeira 38. Os seus escritos estão reunidos sob os títulos: Dias e Noites, poesias; Estudos alemães; Questões vigentes, estudos de Direito; Teses; Vários escritos; Discursos; Polêmicas, etc. 
Nicéas Romeo Zanchett 

REDONDILHAS - Por Luis de Camões

Camões 

REDONDILHAS 
UMA CATIVA ÍNDIA CHAMADA BÁRBARA
Aquela cativa 
Que me tem cativo, 
Porque nela vivo, 
Já não quer que viva. 
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos. 
Que para meus olhos
Fosse mais formosa.
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Nem no campo flores, 
 Nem no céu estrelas
Me parecem bela
 Como os meus amores. 
Rosto singular!  
Olhos sossegados, 
Pretos e cansados, 
mas não de matar. 
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Uma graça viva, 
Que neles lhe mora, 
Para ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos, 
Onde o povo vão 
Perde opinião
Que os louros são belos. 
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Pretidão de amor! 
Tão doce a figura
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor! 
Leda mansidão, 
Que siso acompanha, 
Bem parece estranha, 
Mas... barbara  não.
.
Presença serena
Que tormenta amansa; 
Nela enfim descansa
Toda minha pena. 
Esta é a cativa  
que me tem cativo; 
E pois nela vivo, 
É força que viva!

LEIA TAMBÉM >> VIDA E OBRA DE BALSAC
Nicéas Romeo Zanchett